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Jovem transforma em livro o abuso que sofreu na adolescência

Em Por que você voltava todo verão?, Belén López Peiró dá voz à violência recorrente contra as mulheres a partir de sua própria experiência

Por Natalia Pianzola
Publicado na BBC Mundo

 

Cada vez que cometia um abuso sexual contra ela, seu tio policial deixava a arma por perto – sobre um armário ou um criado mudo. Isso aconteceu durante três anos, quando Belén López Peiró tinha entre treze e dezessete. Um dia, aos 22, a jovem argentina conseguiu superar o medo e o denunciou. O caso segue aberto quatro anos depois e o acusado, em liberdade. Mas, nesse tempo, Belén, agora escritora e jornalista, transformou a história do abuso em seu primeiro livro, Por que você voltava todo verão?, que será lançado em junho pela Elefante. “Escrevi para concretizar isso que eu chamo de minha própria justiça”, conta a jovem autora.

Os verões no interior

Nas férias, durante a infância e a adolescência, ela ia visitar seus tios em Santa Lucía, uma cidade nos arredores de Buenos Aires, na Argentina. Ali saía com primas e amigas enquanto seus pais, separados, trabalhavam na cidade. Foi onde aconteceu a maioria dos episódios de violência sexual que sofreu, escondidos atrás da fachada carismática de bom pai do abusador – marido da irmã de sua mãe. O abuso só foi percebido quando o namorado da mãe da vítima viu como o tio olhava para a jovem e suspeitou que algo estava acontecendo.

A partir daí começou um longo processo que López Peiró descreve como uma passagem por três etapas: o primeiro, reconhecer-se como vítima; o segundo, conseguir se libertar do estado de vítima, e, por último, encontrar empoderamento necessário para superar essa experiência. A superação veio por meio da literatura, quando, em uma oficina de escrita, mostraram que ela “poderia transformar o trauma em arte”.

O caminho não foi fácil: quando decidiu falar, perguntaram por que ela não havia dito nada antes, por que voltava a Santa Lucía todos os verões, por que havia publicizado o episódio e “feito isso com sua família”. Sua resposta foi contar tudo e tornar visível, na cidade de sua infância, o que muitos não queriam ver.

López Peiró diz que teve sorte, porque seus parentes mais próximos – seu pai, sua mãe e seu irmão – não duvidaram dela e lhe deram apoio. E também porque teve recursos para fazer terapia, estudar, escrever. Faz tempo que a jovem não volta a Santa Lucía, onde o tio abusador, que é policial, continua solto.

As vozes do abuso

O relato escrito na oficina literária foi a semente do livro. “Eu não fui capaz de continuar com essa história na primeira pessoa, continuar contando como eu tinha vivido essa situação. Mas sinto que saíram outras vozes”, conta. “É um livro polifônico. O que faço é montar um coro entre a minha voz, a voz do abusador, a voz do meu pai, da minha mãe, do meu irmão, da psicóloga que me tratou, dos médicos, da ginecologista que me atendeu, do advogado que me recebeu para escrever a denúncia, do policial que me atendeu.”

No livro, todas essas vozes se entrelaçam como partes do processo contra o tio, como perícias psicológicas e testemunhas de familiares. O resultado mostra o papel desempenhado pelo ambiente social e familiar nesse tipo de crime. “Há toda uma rede que cria silêncio. Custa muito para esclarecer uma situação de violência”, diz López Peiró.

Reivindicação

A leitura da obra é impactante não apenas pela descrição do abuso mas também pelo que dizem as pessoas que supostamente deveriam ajudar a vítima. “Quis colocar em evidência as respostas, as reações, as palavras que as pessoas usam cada vez que conversam com uma mulher que sofreu abusos”, diz López Peiró.

“É uma crítica de como funcionam as instituições e como elas tratam as mulheres que passam por essa situação. A justiça te fecha portas, os médicos fecham portas. Para a família, quanto mais silêncio, mais tranquilos eles podem viver.”

Por isso, diz ela, as pessoas deveriam preparar-se melhor para ouvir e ajudar mulheres que sofreram abusos. Essa reivindicação feminista marca a publicação de seu livro, que, segundo a autora, é uma obra política. “Acho que há alguns anos um livro como esse não conseguiria ser publicado”, diz.

A publicação teve resultados que a autora não esperava. “Mas depois, pensando friamente, percebi que deveria ser o esperado. Porque aqui na Argentina uma em cada cinco meninas sofreu algum tipo de abuso e 80% deles ocorrem em ambientes familiares. Então, claramente, não estou sozinha.”

Segundo Belén, colegas de trabalho e da faculdade disseram que, por meio da história, puderam pela primeira vez reconhecer e falar que em algum momento de sua vida haviam sofrido algum tipo de violência. “Fiquei emocionada quando uma mulher me escreveu da província argentina do Chaco. Ela disse que era avó e pela primeira vez na vida tinha conseguido falar sobre uma situação que havia vivido. Foi a primeira vez que conseguiu encontrar palavras para falar, porque havia lido essas palavras em um livro.”

A escritora disse que fez um esforço em seu texto para “chamar as coisas pelo nome”, sem os eufemismos que muitas vezes se usa para falar de abuso. Para ela, a obra também é um sinal de esperança. “Ao longo do livro, minha voz também cresce. E termina com a decisão de que não tenho porque viver com culpa.”

Confira a entrevista de Belén López Peiró para a Biblioteques Barcelona (em espanhol, com legendas em espanhol):

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